O homem pode ser definido como o ser capaz de refletir. Justamente, isso. A reflexão faz com que este homem se torne diferente das demais criaturas ou seres vivos. Vemos, entretanto, pessoas que extravasam queixas porque não podem refletir, porque não tem tempo para a reflexão. Por isso, que a reflexão é uma exigência antropológica fundamental. A reflexão faz parte da vida do homem.

Merleau Ponty, filósofo e pensador, já fazia referência sobre o refletir: “é o cógito mais secreto na carne do mundo”. O homem sente-se homem ao pensar em profundidade. Quando isso acontece, este homem experimenta a sua especificidade. Isto faz com que ocorra um salto ontológico, ou seja, o homem dá-se conta de sua importância, do seu valor e claro, começa a perceber que ele está presente num determinado local, participa da conjunção histórica e social do mundo em que vive.

A reflexão, contudo, vai além desses significados. Ela não é apenas este traço divisor entre os seres, mas é uma função eminentemente humana. A reflexão é como o fermento que provoca movimento. É a raiz ou a gênese de todo projeto. Assim, no início do caminhada do homem, há a reflexão. Podemos ressaltar, todavia, que a reflexão não possui, meramente, uma função. Este caráter de funcionalidade dá lugar para a promoção da própria formação humana.

Outro elemento importante que deve ser mencionado neste momento, é a relação de complemento que existe entre o refletir e o homem e, ao contrário também, entre o homem e a reflexão. Vejamos. O homem desenvolve a reflexão, logicamente, sem dúvida. Mas também, o homem desenvolve-se pela reflexão. Ele gera a reflexão, mas também, é gerado pela reflexão. Portanto, não poder pensar, é não poder fazer-se.

A reflexão é muito mais do que atividade lógica. Refletir não é ginástica mental, muito menos alguma operação conceitual. A reflexão cria. Com ela, retomamos as raízes de nossa existência. Assumimos e reassumimos nosso ser. Damos conta da nossa presença no mundo, pois não basta estar presente como objeto entre objetos. Desta forma, o homem não só comparece, mas se faz presente. É a vida assumida e comunicada através da reflexão.

Agora, seguindo essas idéias, podemos afirmar que, deixar de refletir é ser menos, é provocar a perda de ser, além do mais, pode ou não acarretar perda de bens ou lucros. E como o homem não se define apenas pelo que tem, mas sobretudo pelo que é, pela forma como existe no mundo, então deveremos concordar que o refletir define o destino humano. Outra, sem refletir não existe comunicação.

Quando o homem esquece a reflexão, aliena sua essência, caminha para o vazio e começa a ingerir tudo o que lhe é mostrado, o que lhe é dado. Sabe-se que a sociedade contemporânea envolve o homem com uma vasta e complicada rede de relações pessoais e impessoais. Todos nós somos bombardeados por estímulos e solicitações de todo tipo. O homem sente-se excitado numa área enquanto é inibido noutra. Existem momentos cruéis em que a interioridade humana, parece ser mastigada por inúmeras pressões sociais e engolida pelos acontecimentos.

Entretanto, é neste emaranhado de situações e pressões, são nestes conflitos invisíveis, em que emerge a necessidade vital da reflexão. Ela se torna e é o fundamental recurso humano. A pessoa agarra-se a ela, para não submergir. Refletir não significa (vale sublinhar), hermetismo ou algo que serve para se desligar do mundo, mas é articular-se com a realidade. Não é retrair-se, mas dispor-se à comunicação. Não é fugir para o interior das casas, mas é recolher-se interiormente e permitir a abertura da consciência. Com a reflexão, o homem preserva sua identidade, constrói sua personalidade. Através do ato de refletir, o homem  olha-se por dentro, avalia sua história, reinterpreta sua caminhada. A reflexão é o chamado antropológico. É o caminho do reencontro pessoal, pois lhe confere o sinal da sua existência.

Arduini (1977, p. 89) afirma com propriedade, aquilo que geralmente ouvimos sobre o homem moderno, onde o mesmo, não é capaz de pensar: “ O homem de hoje reflete e, até muito, mas dentro de algumas faixas ou em função de certos objetivos”. Ou seja, dizer simplesmente que o homem atual não reflete, pode ser muito vulgar, pois não está se levando em conta, o processo da cultura moderna.

Ora, se chegamos onde estamos hoje, é porque houve reflexão. Não importando se o propósito da própria reflexão foi lenta ou sofisticada.

Por fim, neste novo ano que ora inicia, tenhamos na reflexão, na análise, no pensar, algo que transforme nossa vida e claro, nosso viver. Não precisamos fugir do mundo e se “desligar das coisas” que estão ao nosso redor (isso não é reflexão!). Possamos ultrapassar o nível, apenas, funcional da vida e que assim, possamos perceber e verificar que a existência é feita de alegria e de tristeza, de confiança e temor, interrogações e grandeza, compromissos e fidelidade. À medida que o homem vai escalando séculos, anos, a reflexão se torna algo indispensável para o homem e, em consequência, para a humanidade. Enfim, não ignore a reflexão. Exercite-a. Não canse e nem abandone o refletir. Boa reflexão e um bom ano a todos nós.