“Ninguém morre antes da hora” é uma interpretação fatalista sobre a morte. É como se um programa minucioso prefixasse dia e hora para o desaparecimento de cada ser humano. Seria uma data implacável. Poderíamos imaginar a cena: “..chegado o momento preestabelecido, teria de surgir um fator qualquer para sustar o curso da vida. E como é preciso encontrar um responsável pela morte fatal, recorre-se a um destino cego, força desconhecida que manipula os cordéis da vida humana. Ou então, apela-se para um providencialismo mecânico, segundo o qual Deus estaria atento para não deixar passar ninguém vivo além da marca da morte. E assim, se algum fator relativo não eliminasse o homem na hora assimilada, Deus se encarregaria dessa nobre função” (ARDUINI, J. Estradeiro, 1987). Infelizmente, há os que aceitam essa versão, sem perceberem que ela é blasfematória e absurda.

            Sabemos que o homem é mortal e a vida tem limites. Compreendemos que o homem termina sua caminhada dentro de um determinado espaço de tempo. Com a idade, as energias biológicas vão se reduzindo e vem o declínio da vida humana. Outras vezes, a pessoa é atingida por enfermidade que não pôde ser evitada ou sanada, quer porque a medicina ainda não dispõe de recursos adequados, quer porque os povos ainda não conseguiram um estágio econômico ou técnico que lhes permita remover certos tipos de doenças. Há também situações que escapam ao domínio humano e acabam por desencadear a morte, como o caso de acidentes incontroláveis.

            Mas, poderíamos dizer que todas as mortes se incluem nessas situações? Penso que não. Há muita morte que poderia se evitada ou pelo menos, adiada. Há muita morte que não tem data marcada. A verdade é que muita gente morre antes da hora.

            Morrem antes da hora, as vítimas dos acidentes causados por motoristas alcoolizados ou imprudentes (basta chegar a “bendita” ou “maldita” segunda-feira e acompanhar as estatísticas – se estivermos vivos, evidentemente – visto que nos finais de semana ocorrem inúmeros acidentes em toda a parte). Morrem antes da hora as vidas que são destruídas pela prática generalizada do aborto. Morrem antes da hora as pessoas que são dizimadas pela guerra planejada. Morrem antes da hora aqueles que foram eficazmente devorados pela fome ou pela subnutrição. Morrem antes da hora as crianças que deixam de viver antes de 1 ano de idade, porque a mortalidade infantil está associada ao subdesenvolvimento. Morrem antes da hora aqueles que poderiam viver um pouco mais se os recursos dos países fossem aplicados às necessidades básicas da sociedade em vez de serem generosamente drenados para outras finalidades (o próprio contribuinte fica se perguntando para onde foi tamanha arrecadação daquele período!).

            Poderíamos acreditar, honestamente, que “ninguém morre antes da hora”? Com razão, escreve Marcuse: “Não os que morrem, mas os que morrem antes de querer e dever morrer, são a grande acusação lavrada contra a civilização”.

            “Ninguém morre antes da hora” é uma racionalização sociocultural que tenta justificar a morte que não devia acontecer. É uma defesa, armada para desresponsabilizar aqueles que, pela omissão, ganância e malícia, antecipam a morte dos homens. Escrevi essa reflexão para que não deixemos que nossos irmãos morram antes da hora.