Publicidade

Roque JR

82 - “Me consegue dinheiro para comer algo?”

Cá estou em Bento Gonçalves, ao me ser solicitado dinheiro para comer por uma pessoa mal vestida e com cheiro desagradável, que afirmou residir na rua. Solicitei se ela tinha fome. Respondeu-me que sim. Solicitei se comeria um pastel. Respondeu afirmativamente. Aí fui até um bar, solicitei para aquecer e dei o pastel a ela.

Relevante detalhe: aquele dinheiro eu não podia gastar.

Em seguida esta pessoa, com o pastel na mão, voltou a pedir dinheiro a outras pessoas, algum tempo depois colocou o pastel no bolso de seu casaco e ficou caminhando pelo local.

Não devemos julgar ninguém, não conhecemos as necessidades e a realidade das pessoas. Vamos pensar positivo: vá que ela queria dividir com outros.

Certa vez, grande amiga me disse que, ao dar esmolas, não devemos olhar o que será comprado com o referido dinheiro, apenas fazer, ou não, a doação.

Falei a esta amiga, isso há mais de década, que me sentia culpado se por um lado não auxiliava as pessoas que solicitavam, por outro, poderia estar prejudicando ainda mais as suas vidas. Muitas sábias palavras dela, utilizando do livre arbítrio, pois se estiver querendo doar algo, e de coração, tua parte estará sendo feita.

Mais ainda, se a pessoa que vier a ajudar tiver algum vício, ou mesmo gastar com algo que tu entendas como errado, isto não é de sua conta. As liberdades de escolhas, atuação e como investir, mesmo as misérias que vier a receber, deve ser da pessoa que estiver passando a necessidade.

Acredito que devemos agir com o coração nesses momentos, não com a razão. Dar, se acharmos necessário, sem questionar o destino do dinheiro.

Desta forma, este “filme”, relembrando muitos detalhes, passou muito rápido pela minha cabeça, agi com a razão, não queria que ela gastasse com outra coisa, a não ser com alimento, como eu entenderá ser o certo, mas não parei para pensar qual seria o certo para ele. E se for um motivo nobre, e só alegava ser “para comer algo” uma forma de sensibilizar quem dá (ou não).

Se eu tivesse dado algumas moedinhas, valor bem inferior, poderia suprir o que ele estaria precisando? Fica os questionamentos, leve em conta, ao menos reflita em algum momento.

Em última análise não temos o direito de interferir no que irão gastar, pois o dinheiro não será mais nosso. Não podemos tirar a liberdade de quem pede, mesmo que tenham falsas justificativas, ou, por algum motivo, que não nos cabe entender, ludibriem os verdadeiros interesses com os referidos valores arrecadados.

Foto: Internet/autor desconhecido

Sobre o autor Roque JR

Roque JR é graduando em Sociologia e História na UCS, ambos os cursos mais de 50% das disciplinas cursadas. Fotógrafo há quase três décadas. Lançou sua primeira obra literária em 1999. Editor e historiador, já publicou 18 obras literárias. Foi fundador do CASFF, da UFES, do LEO Clube Farroupilha Imigrante, militante em várias áreas em especial no meio estudantil entre 1987-2014. Atualmente dedica-se a Literatura; à Luta antimanicomial, Saúde Mental e Saúde Pública.

Visitar site do autor

Lista de Artigos de Roque JR